Acústica de Salas de Audiências de Tribunais

14 Agosto, 2010.

Caracterização Acústica de Salas de Audiências de Tribunais

A comunicação oral em recintos fechados impõe características acústicas específicas, assim também nas salas de audiências de tribunais o discurso deve ser recebido de forma clara, idealmente com a noção de proveniência do local do orador sem exigir esforços tanto deste como da atenção do auditor. A uniformidade da distribuição do campo sonoro e a inteligibilidade da mensagem acústica são requisitos fundamentais.

Uma das principais preocupações desta parte da ciência é poder pré-definir as dimensões “perfeitas” de uma sala. Até este momento a acústica arquitectónica havia-se desenvolvido por princípios e fórmulas gerais determinadas sobre bases puramente experimentais e a consequente formação das teorias apropriadas. A partir de bases puramente teóricas desenvolveu­-se uma completa série de regras e fórmulas para explicar a grande variedade de fenómenos de grande importância que ocorrem num recinto fechado.
Dificilmente se pode conseguir uma boa acústica numa sala de grande volume, pois o tempo necessário para que o som atinja o receptor, assim como, a reverberação do mesmo produzem geralmente um efeito prejudicial.
0 processo tecnológico da evolução que se vive mostra um crescente domínio de qualquer disciplina de carácter técnico. Na maior parte das vezes, esta amplificação provoca a fusão de ramos distintos, cujo estreitamento torna possível um conhecimento mais completo e coerente da matéria objecto de estudo. A acústica encontra-se em pleno neste processo expansivo e aglutinante, com intervenção em múltiplos campos. Numa sala destinada à “palavra” deverão verificar-se as seguintes condições acústicas:
i) 0 nível de ruído ambiente deve ser suficientemente baixo para permitir uma boa percepção.
ii) 0 tempo de reverberação na sala deve ser suficientemente curto para garantir a inteligibilidade.
iii) A intensidade do campo sonoro deverá ter uma distribuição homogénea.
iv) Permitir a privacidade para o exterior.
É ainda desejável salvaguardar a direccionalidade necessária à noção subjectiva do posicionamento do orador.
O nível de intensidade sonora, em qualquer ponto da sala tem de ser sempre superior em alguns dB ao nível do ruído ambiente para evitar efeitos de  “mascaramento”.
Designa-se por mascaramento a alteração do limiar de audição de um som pela presença de outro. 0 efeito do mascaramento toma­-se assimétrico à medida que a intensidade aumenta.
Um outro conceito que convém aqui salientar é o de banda crítica, que podemos definir como sendo o limite da largura de banda do ruído mascarador além do qual não há aumento resultante do mascaramento.
A não percepção de segmentos da mensagem mascarada leva à perda de inteligibilidade ou a um esforço suplementar da atenção do auditor.

Caracterização Acústica de Salas de Audiências de Tribunais

Para uma correcta detecção de cada componente do sinal sonoro é essencial que o tempo de reverberação seja baixo. 0 tempo de reverberação ideal não é nulo.
Em tal situação, equivalente à do campo livre, haveria problemas de potência. O discurso soaria de forma desagradável, não só, devido ao esforço que seria exigido ao orador para se fazer ouvir em toda a sala, mas também, à alteração das condições de sonoridade que o auditor associa ao discurso. É pois necessário encontrar uma solução de compromisso para o tempo de reverberação de forma a optimizar a relação inteligibilidade/conforto sonoro na recepção. A extensão deste compromisso tem ainda uma componente linguística, já que o conhecimento ou não do contexto da mensagem pesa na rapidez da compreensão.
É necessário assegurar que a distribuição sonora na sala seja homogénea para não privilegiar zonas da mesma. A direccionalidade, é outro aspecto a considerar ao projectar uma sala ou auditório para a palavra. Deverá ser assegurado ao ouvinte, sempre que possível, a sensação de que o som vem do local onde ele vê o orador. Esta sensação de direccionalidade é determinada fundamentalmente pela relação entre a onda directa e as suas reflexões.
Numa sala, a curta distância da fonte Sonora, a intensidade do som é devida essencialmente à onda directa, com o afastamento do auditor à fonte, o percurso da onda directa e consequentemente a atenuação da sua energia aumenta. A partir de certa altura, esta energia é da mesma ordem de grandeza da contribuição
das diferentes reflexões. Verifica-se então uma grande perda de inteligibilidade, uma vez que são recebidos simultaneamente num mesmo ponto dois segmentos sonoros distintos, com tempos de atraso também distintos. A noção de direccionalidade desaparece, tomando-se necessário intensificar a onda directa e atenuar a onda reflectida.
Para resolver este problema existem várias soluções, uma das quais poderemos designar por “passiva”, consiste no aproveitamento máximo da energia própria da fonte colocando superfícies reflectoras sobre a zona de emissão. Do mesmo modo, para atenuar as ondas reflectidas colocam­se absorventes acústicos nas zonas mais afastadas do local de emissão.
Normalmente para atenuar as ondas reflectidas na zona mais afastada do orador coloca-se um réguado de madeira muito absorvente. No entanto, este tipo de solução nem sempre é possível, satisfatória ou mesmo económica. Por vezes, a área a cobrir pela emissão sonora é demasiado extensa, ou a fonte demasiado fraca, ou as superfícies a tratar com materiais absorventes não conduziriam a soluções satisfatórias sob o ponto de vista arquitectónico, estético ou económico. Neste caso, opta-se por uma solução do tipo “activa”, recorre-se ao esforço electroacústico.

Autor: Carlos Aquino Monteiro
Excerto Adaptado

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