A Hierarquia das Vias Urbanas

28 Fevereiro, 2011.

Rede de vias urbanas

O estudo de vias urbanas reveste-se de um carácter complexo, muitas vezes limitado unicamente ao estudo de fenómenos associados com a mobilidade que estas proporcionam, ou devem proporcionar, como se de uma qualquer estrada, ou simples via de comunicação se tratasse.

A complexidade deste estudo emerge da multi­funcionalidade presente em qualquer via de um meio urbano, geralmente associado a elevadas densidades demográficas e taxas de ocupação de solo. As vias de comunicação representam um dos factores mais importantes para o bom funcionamento das cidades, regiões e países. Obviamente, que as exigências impostas pela tipologia e funcionamento do meio em que as vias estão inseridas variam, consideravelmente, consoante se trate de um meio tipicamente rural ou urbano.

Intersecção em ambiente urbano

A um meio com um carácter rural associa-se, sem grande objecção, uma rede viária mais simples constituída por estradas de grande importância em termos de circulação de tráfego e outras com menos exigências a esse respeito, sendo especialmente desenhadas e pensadas para garantir o acesso às propriedades, ou terrenos adjacentes, existindo um conjunto de ruas intermédias responsáveis pela transição entre os dois tipos referidos. Geralmente, devido à dispersão da ocupação do solo e da concentração de pessoas em povoações, ou pequenos aglomerados urbanos, a maior parte da extensão deste tipo de rede encontra-se vocacionada para garantir o acesso indispensável a todos os locais possíveis. O tráfego gerado é então encaminhado dos extremos da rede, ou nós extremos, até outras vias que serão responsáveis por garantir uma circulação mais fluida e eficiente dos veículos.

Seguindo esta filosofia define-se a hierarquia funcional das vias, que pode ser considerada como a hierarquia viária “convencional”, baseada no estudo da função de circulação, ou mobilidade, e na função de acesso aos terrenos adjacentes. A hierarquia é definida com base na importância relativa destas duas funções. Neste caso a multifuncionalidade, particularmente, associada às vias inseridas em meio urbano torna-se segundo esta perspectiva apenas bifuncional.
Ao longo dos anos esta hierarquia foi tão aplicada quer na definição e estudo de redes viárias de um meio rural, quer na definição e estudo de redes viárias de um meio urbano.

Não é por acaso que o estudo de uma via situada em meio urbano pressupõe a utilização ou definição de uma hierarquia ou classificação viária. A classificação permite acima de tudo a identificação de grupos com características homogéneas em relação às funções ou elementos utilizados na sua definição. A definição das principais características de cada tipo de rua (em termos médios), permite estabelecer a classe de uma rua, e através da comparação das características intrínsecas de cada rua com as ruas da sua classe, é possível identificar os problemas existentes nas ruas, assim como promover e definir estratégias adequadas para a sua resolução de acordo com a classe das ruas. Deste modo, prevê-se uma maior eficácia das medidas propostas, uma vez que a heterogeneidade das ruas é reduzida. Muitas vezes este tipo de classificação é vulgarmente definido num estudo orientado para a identificação e resolução dos problemas de funcionamento de uma rua.

Uma via (estrada) que atravesse um meio rural usualmente apresenta um perfil transversal característico, onde é favorecida e instigada a supremacia do veículo motorizado, sobre todos os restantes modos de transporte. Em meio urbano esse fenómeno é, ou deve ser, menos frequente, encontrando-se geralmente associado a vias (ruas) com elevados padrões de desempenho de circulação.

A uma via em meio urbano o estudo tem de obrigatoriamente se estender a todo o perfil transversal, ou seja, à dimensão da rua. É esta abertura e interligação com a dimensão do carácter do meio no estudo das vias situadas em meio urbano, que se pretende perceber e dar um contributo para a discussão e definição de estratégias que visem simultaneamente o desenvolvimento em termos económicos, sociais e ambientais, ou seja, o desenvolvimento Sustentável dessas ruas, o qual muitas vezes se esbate e perde.

Distribuição de vias urbanas

A consideração da designação “vias urbanas” relega para um plano de destaque o meio onde as vias se inserem, reflectindo assim a sua influência no estudo e caracterização dos espaços de circulação. Deste modo, o enquadramento do tema passa pelo conhecimento de algumas ferramentas utilizadas num estudo viário em relação a diferentes tipos de meios, mais especificamente, o meio rural e urbano.

Convencionalmente, uma das ferramentas e etapas no estudo de uma rede viária, ou simplesmente, de uma via consiste na identificação e classificação dessas vias.
De certa forma, podem classificar-se diversos elementos segundo várias perspectivas, tendo em atenção por exemplo, determinadas características comuns, sendo usual a classificação em grupos, ou tipos, com base em aspectos comuns entre eles.
Quando se trata de elementos complexos como estradas e ruas, o agrupamento é mais complexo, quer pelas diferentes abordagens e perspectivas técnicas dos diversos grupos de interesse da rua, quer pelos consequentes elementos característicos de agregação considerados.
Podem-se agrupar ruas tendo por base a largura das vias, dos passeios, altura dos edifícios, tipo de iluminação, tipo de vegetação, tráfego, velocidades, entre outros. Por  conseguinte, interessa saber quais os tipos de critérios e características utilizados na definição dos tipos de ruas e estradas, com o intuito de perceber o que é possível fazer para definir estratégias e melhorar o seu desempenho, ou simplesmente para tentar prever quais os efeitos de uma alteração nesses elementos.

Autor: Paulo Jorge Gomes Ribeiro
Excerto Adaptado
Imagens: MHR Arch

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